Viva Mandela!

SOUTH AFRICA MANDELA

Lembro que, quando era criança, me causou confusão ver Nelson Mandela na TV falando em outra língua que não o português. Por alguma confusão, natural da primeira infância, acreditava que aquele homem negro, de cabelo grisalho, olhar sereno e camisa estampada era brasileiro. E poderia ser. Não sei se pela pronuncia do nome, que não me parecia estrangeiro. Talvez pela cor da pele, comum na nossa população mestiçada. Aquela figura me parecia familiar.

Essa primeira cena deve ter ocorrido em algum momento dos primeiros anos da década de noventa. Provavelmente em 1990, quando Mandela é libertado da prisão, ou 94 quando é empossado o primeiro presidente negro de um país predominantemente negro. Tinha algo entre 5 e 9 anos, quando a memória, e tudo o mais, não é muito precisa.

Tempos depois, quando a consciência histórica e o senso crítico começavam a aflorar, e já sabendo que infelizmente Madiba não vivia por aqui, não foi difícil me identificar com suas ideias, reverenciar sua trajetória. Para qualquer jovem ‘revolucionário’, era inspirador aquela figura que lutou pela liberdade pagando com a própria liberdade. Disposto a morrer por uma causa. Pela ideia simples, de que todo homem é igual.

Lutou com armas quando outro caminho não era possível. Amargou anos de solidão e isolamento, ilhado, convivendo apenas com suas convicções, temores e, principalmente, seus sonhos. Sem rancores. Com uma capacidade sobre-humana para perdoar, não se tornou um homem amargo.  Como ninguém, soube fazer da política a arte da conciliação e,  por meio dela, a capacidade de materializar os sonhos, e fazer sonhar junto.

Não é fatalismo dizer que o mundo fica pior sem Mandela. Contudo, na história vai viver eternamente.  Talvez não o maior, salvo uma análise histórica mais criteriosa, mas com certeza a melhor figura histórica do século XX.  Pelos valores nobres que inspira. Por toda uma vida que serve de exemplo.  Ao Brasil, cabe especial função na manutenção de seu legado, no compromisso, senão por uma democracia racial plena, por uma sociedade plural e tolerante, como se Mandela fosse um dos nossos. E ele também era. Viva Mandela! 

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A Vassoura e o Martelo – o Barbosismo

barbosa

No último final de semana, a divulgação da pesquisa Datafolha (aqui) para as próximas eleições presidenciais foi comemorada pelo governo e trouxe desânimo para a oposição. Passada a euforia dos primeiros dias com a composição entre Marina Silva e Eduardo Campos, os números apontam para uma vitória de Dilma Rousseff ainda em primeiro turno.

Contudo, parece-me que o dado mais relevante trazido pelo levantamento, e tratado de maneira residual pelos veículos, foi o aparecimento em segundo lugar do nome de Joaquim Barbosa, presidente do STF. Ainda que, mesmo assim, não consiga provocar um segundo turno, é dado de extrema relevância, ao superar o conjunto da oposição, e, portanto, merece reflexão.

O “Barbosismo”, calcado no moralismo de nova roupagem, personalista, turbinado pelo espetáculo midiático das prisões dos condenados do processo do ‘mensalão’ encontra ressonância nos setores mais radicais de classe média (pseudointelectualizados, pseudopolitizados), mas que recusam e criminalizam a política e são contra tudo que está aí.

Falta-lhe, no entanto, bases sociais mais sólidas. No mundo jurídico, Barbosa não é unanimidade. De Ives Gandra Martins a Dalmo Dallari, sobram críticas de seus colegas aos excessos cometidos, ao atropelamento dos direitos processuais, o gosto pelos holofotes, e por fim, à mistura entre as funções de acusador e julgador na Ação Penal 470.  Celso Antonio Bandeira de Mello acusa-o de ser um homem mau (aqui). O movimento negro também não o identifica como seu porta-voz ideal (aqui).

Para pôr de pé sua candidatura, Joaquim conta com um ponto a seu favor e outro contra. Para poder disputar as eleições, o magistrado tem até o dia 5 de abril para se filiar a um partido político. Mais tempo, mais holofotes. A dificuldade é encontrar partido que o respalde. Se Barbosa refuta a política tradicional, essa também o recusa.

Segundo levantamento d’O Estado de S. Paulo (aqui), dos principais partidos, nenhum se mostrou disposto a abrir-lhe as portas. Dos partidos que estão com candidatura posta, nenhum abriria mão da cabeça da chapa. Apenas o PSDB cultiva o sonho de tê-lo na vice. O PMDB dá de ombros: “Se o ministro se filiar, será mais um”, segundo Valdir Raupp, que preside a legenda.

Nos médios, identificados com o fisiologismo, a recusa é ainda mais veemente. “No PR não. Deus me livre”, diz o presidente da sigla, senador Alfredo Nascimento. “No PP, não”. No PTB: “Não queremos isso”. O PCdoB é taxativo: “Não me parece que o Joaquim Barbosa tenha alguma afinidade com os comunistas”. Nem o PPS de Roberto Freire, sempre disposto a tudo para fustigar o governo recusa a empreitada: “Essa filiação para uma candidatura não nos interessa”.

Entusiasmam-se apenas os nanicos.  PMN, PRP, PT do B, PTC, PRTB, PHS e PEN colocam-se à disposição do ministro, interessados na visibilidade que o nome traria à legenda. Juntando os sete, não dá meio. Barbosa parece que também não se sujeitaria. Por mais de uma oportunidade condenou o atual quadro de proliferação das legendas, que criam, em suas palavras, “partidos de mentirinha”.

A conta não fecha. Não querem Barbosa, mas sem ele o pleito parece perdido. A um ano das eleições, muita água ainda vai passar por debaixo da ponte. No entanto, caso o quadro fique inalterado e se consolide a provável vitória do PT de Dilma, as pressões por uma aliança de Barbosa com a oposição aumentarão a cada dia.

O movimento ecoa o contexto político pré-64. Um projeto trabalhista fustigado por denúncias de corrupção, que tomados por uma onda moralista, respaldada pela opinião pública e publicada, buscam uma figura heroica com a capacidade de varrer toda essa sujeira da política e corrigir os rumos da nação. Antes, buscaram o apoio das metralhadoras e dos homens de verde-oliva. Agora, o martelo e a capa preta.

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Mais Médicos e muita polêmica

Chegada de médicos estrangeiros gera onda de polêmica. Maioria da população apoia.

Principal medida em resposta aos protestos que tomaram as ruas do país, o governo federal lançou o programa ‘Mais Médicos’ com o objetivo central de garantir a ampliação do atendimento em saúde básica nas áreas mais carentes – Regiões Norte, Nordeste, interior e periferia das grandes cidades. Além da contratação imediata de 10 mil médicos para o atendimento nas referidas regiões, o programa prevê ainda o investimento de R$ 12,9 bilhões até 2014, a expansão do número de vagas nos cursos de medicina, com 11,447 vagas, além de 12.327 vagas em residência médica até 2017.

Para o preenchimento das vagas, o governo federal oferece aos médicos interessados salário de R$ 10 mil, mais R$ 4 mil para a formação de sua equipe – enfermeiros e auxiliares. Os custos com moradia e alimentação ficam a cargo dos municípios que se inscreveram no programa. As vagas são destinadas primeiramente aos médicos formados no Brasil. As remanescentes vão para brasileiros formados no exterior e depois para médicos estrangeiros. Reside aí o foco principal das polêmicas.

A contratação individual de médicos estrangeiros, como pessoas físicas, causou resistência. Contudo, o que causou comoção nos órgãos de representação classista, e reverberando com força na grande mídia, foi a decisão do governo de trazer 6.000 médicos cubanos, em acordo com o governo de Havana, intermediado pela OPAS (Organização Pan-Americana de Saúde). Uma mistura explosiva de corporativismo, preconceito ideológico e racial, e xenofobia é o que se pode notar nas reações mais estridentes.

Em Minas Gerais, o presidente do Conselho Regional de Medicina local afirmou à um jornal local que denunciaria os médicos cubanos por exercício ilegal da profissão, além de orientar os profissionais vinculados à entidade a não socorrerem erros dos colegas cubanos. A atitude proposta pelo dirigente quebra com o juramento de Hipócrates, um dos fundamentos mais básicos da atividade médica e manifesta o preconceito ideológico para com os doutores da ilha de ‘Che’ e Fidel.

A primeira leva de médicos cubanos, que desembarcou no Ceará, foi recebida aos gritos de “escravos”. A ilação se refere ao fato que no convênio acordado o pagamento será feito ao governo de Havana e não diretamente aos médicos, que sofreriam também limitações de liberdade em território brasileiro, sem esclarecer como se daria tal vigilância. Em situações inversas, quando funcionários públicos brasileiros integram missões no exterior, Petrobras e Embrapa por exemplo, o pagamento é feito ao estado brasileiro e não ao agente individualmente.

A mais esdrúxula manifestação de racismo e xenofobia partiu de uma jornalista potiguar que, da chegada dos médicos cubanos ao Brasil, afirmou que “essas médicas cubanas tem uma cara de empregada doméstica”. Fossem brancas suecas e não negras cubanas, haveria tanta resistência? Seria triste se fosse um despautério isolado, mas sabe-se que a sua indelicada sinceridade é uma das facetas da nossa dita “democracia racial” e encontra eco nos setores mais conservadores e elitistas da nossa sociedade.

Por fim, levantaram até o argumento de má formação dos médicos de Cuba. Aos que vivem em outro planeta, cabe lembrar que o país caribenho, é considerado pela OMS (Organização Mundial de Saúde) referencia em saúde, principalmente em assitência básica e preventiva, ostentanto a incrível marca de 6,7 médicos por habitante em média, superando países como Estados Unidos, Canadá e Alemanha, enquanto no Brasil esse número é de 1,8. Graças à sua medicina preventiva, a ilha tem a taxa de mortalidade infantil mais baixa da América – 4,9 por mil (contra 60 por mil em 1959, quando do triunfo da revolução). Da mesma forma, a expectativa de vida dos cubanos – 78,8 anos (contra 60 anos em 1959) – é comparável a das nações mais desenvolvidas.

Outro argumento bastante repetido é que não faltariam apenas médicos, mas infraestrutura e condições básicas para o atendimento. Nesse sentido, os investimentos previstos de 12,9 bi compreendem a construção de 818 hospitais, 601 UPAs (Unidades de Pronto Atendimento), 6 mil UBSs (Unidade Básica de Saúde) e 15.977 postos de saúde.

Pesquisa divulgada pela CNT (Confederação Nacional dos Transportes) nesta terça-feira (10) demonstrou que a maioria da população brasileira apoia o Programa Mais Médicos. 73,9% dos entrevistados afirmaram ser favoráveis à iniciativa do governo federal de levar médicos para municípios carentes deste tipo de profissional na rede pública de saúde.Os dados apurados na pesquisa revelam ainda que 49,6% dos entrevistados acreditam que o programa irá solucionar problemas graves da saúde no país. Para 34,7% dos entrevistados, os serviços de saúde vão melhorar já nos próximos seis meses.

Cabe às entidades de classe e à mídia a fiscalização de tais investimentos e o cumprimento das metas para o programa, denunciando eventuais desvios. A população já começa a sentir os efeitos positivos, como por exemplo, o número de atendimentos médicos que mais que dobrou nos municípios pobres do interior da Bahia. Que resultados como esse se espalhem!

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Um Americano na Revolução

Famoso jornalista norte-americano relata os eventos de outubro de 1917

 

Por casuísmo da história ou ironia do destino, o mais importante relato dos eventos ocorridos na Rússia, em novembro de 1917, que culminam à Revolução Bolchevique, foi feito por um jornalista norte-americano, que acompanhou de perto o desenrolar dos acontecimentos, John Reed. Ele relata no, já, célebre livro “Dez dias que abalaram o mundo” a Revolução proletária, que será o fator decisivo para que nos anos subsequentes se dê a disputa de poder, em escala global, nos tempos da guerra fria.

No momento em que decorrem os eventos, John Reed está com trinta anos e é o mais bem pago jornalista da imprensa americana. Formado em Harvard e tendo anteriormente participado da cobertura da Revolução Mexicana, com a deflagração da Primeira Grande Guerra, é enviado como correspondente de guerra do The Masses, principal jornal da esquerda radical nos EUA, ao leste europeu, chegando à Rússia em setembro de 17.

Reed na Rússia, em 1917

Chegando a Petrogrado (São Petesburgo), por ora se passando por um jovem militante da causa operária, Reed acompanha de perto toda a movimentação popular, as discussões do partidos, colhendo relatos de peças-chave como Trotsky, entre outros, além da infinidade de publicações, de panfletos, jornais operários e periódicos tradicionais. A partir desses elementos, do seu olhar aguçado, além da prosa refinada, é que o jornalista americano busca reconstruir os eventos daqueles dias que se mostrariam tão decisivos para o desenrolar da história mundial.

Contexto Histórico

 Por volta de 1917 , a Rússia passava por grandes dificuldades. A entrada na Primeira Grande Guerra agravava ainda mais o quadro de penúria social. Um país essencialmente agrário, com as terras em posse da antiga nobreza, com poucas indústrias, concentradas nas principais cidades mais à oeste, São Petesburgo e Moscou, em mãos de estrangeiros e uma pequena parcela controlada pela nascente burguesia local. Trabalhadores no campo e nas cidades enfrentavam as piores condições. As jornadas de trabalho nas fábricas eram as maiores do continente europeu, os salários os menores. Com muito trabalho e pouco dinheiro, o povo russo ainda enfrentava a elevação dos preços, quando não o desabastecimento, em consequência do conflito mundial que já durava três anos.

Politicamente, viviam como a Europa de um século atrás, sob uma monarquia absolutista, como se a Revolução Francesa não tivesse acontecido. O Tzar Nicolau II governava com mãos de ferro, impedindo qualquer manifestação de oposição. Partidos políticos e jornais eram proibidos.

É celebre o caso da repressão do governo czarista à uma grande manifestação popular de cerca de 200 mil pessoas que foram recebidas a tiros de fuzil em frente ao Palácio do Governo, residência oficial do Czar, em 1905, conhecido como “Domingo Sangrento”. Cedendo, em parte, às pressões populares, o Tzar aceita a instalação da Duma, uma câmara deliberativa com representantes eleitos, contudo, de atuação limitada. Os acontecimentos de 1905 servirão como uma espécie de ensaio geral para as mobilizações de massas que viriam a seguir.

A partir da instalação da Duma, aparece uma torrente de partidos e aqueles que já atuavam na ilegalidade passam a ocupar os espaços políticos. As principais forças políticas estavam representadas no Partido Social-Democrata Russo, de ideologia marxista e com penetração nas classes trabalhadoras, e o Cadete, partido que congregava a incipiente burguesia.

Dentro do Partido Social-democrata, habitam duas correntes, que, concordando nos princípios marxistas, discordavam da prática. Os Mencheviques, majoritários no período pré-revolucionário, acreditavam que uma Revolução Proletária naquele momento não seria possível, sendo necessário avançar mais no desenvolvimento capitalista antes de rompê-lo ou suplantá-lo por uma nova ordem socialista. Já os Bolcheviques, liderados por Lênin (do exílio) e Trotsky, acreditavam não só que as condições para uma ruptura estavam colocadas, como caberia aos russos o papel de primeira centelha da Revolução que incendiaria todo o continente fragilizado pela Guerra.

No início de 1917, a situação já se mostrava insustentável, e as notícias desalentadoras do front, somadas as condições precárias da população resultaram em uma eclosão sem precedentes de greves e protestos por todo o país. Acuado, o imperador abdica.

O governo provisório, formado pelos Mencheviques e liderados por Kerenski, apresentava duas grandes fragilidades: a manutenção da Rússia na guerra e a aliança com setores da burguesia (Os Cadetes), a segunda, em partes, responsável pela primeira. A falta de apoio dos demais grupos políticos e do restante da população configura o período do governo provisório como um momento de absoluto vácuo de poder, como os relatos de Reed sobre a inépcia de Kerenski e do seu gabinete deixam bastante claros.

É nesse vácuo que novas estruturas controladas pelos bolcheviques, como os soviets (uma espécie de sindicato que congregava trabalhadores de fábrica, camponeses e soldados que passa a ter cada vez mais competências relativas à administração local) e a guarda vermelha (formada inicialmente por milícias de trabalhadores armados), passam a competir com os órgãos oficiais do governo provisório. Com o incessantes lema “Pão, Paz e Terra”, os Bolcheviques ganhavam cada vez mais o apoio das massas, de setores do exército e principalmente dos trabalhadores organizados nos soviets, prometendo a saída imediata da Rússia da Guerra e a reforma agrária que garantiria a inclusão da massa de camponeses. O sentimento do povo para com a debilidade do governo provisório e a empolgação com as propostas bolcheviques podiam ser resumidos em outro forte lema que vai embalar o povo russo:“Todo Poder aos Soviets”.

Quase como num thriller policial, Reed nos envolve nos acontecimentos daqueles dez dias que antecedem a data da convocação do Congresso Pan-Russo dos Sovietes. É como se estivéssemos juntos com Lênin e Trotsky no preparativos para a tomada do poder, “da clandestinidade para o poder supremo”, como disse o primeiro. E no dia 7 de novembro, com resistência menor que a esperada e um reduzido número de mortos, os bolcheviques tomam o palácio do governo.

Os revolucionários vermelhos ainda terão que enfrentar dois anos de intestinas batalhas contra os “Brancos”, grupos reacionários apoiados pelas potências estrangeiras, que já, desde o início, evitam a todo custo a expansão da Revolução. Virão os recúos estratégicos na gestão econômica, com a NEP de Lênin, tentando evitar a quebra total do país com a reintrodução de práticas capitalistas.

Virão, ainda, os anos de dura repressão, com milhões de presos e mortos nos Gulags (campos de trabalho forçado na Sibéria) a mando de Stalin. Contudo, foram os esforços desse ‘monstro frio e autoritário’, como querem seus detratores, além dos esforços de todo o povo russo, que garantiu a sobrevivência da democracia ocidental ao derrotar, predominantemente, as forças nazistas de Hitler e seus comparsas.

O legado da revolução é incomensurável, sendo a primeira tentativa de construção de uma alternativa social baseada nas ideias socialistas, que vão servir de modelo para meio mundo, e suscitar o ódio na outra metade. O relato de Reed nos oferece um riquíssimo ponto de vista para conhecer melhor tais eventos.

Após ter ajudado a fundar o Partido Comunista Operário Americano, Reed retorna à Rússia, contraí tifo e morre em 19 de outubro de 1920. Velado como herói na praça vermelha, recebendo uma placa nos muros do Kremlin, em sua homenagem. O mais Soviético dos Americanos.

(em colaboração com César Hussak e Jaílton García)

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A Maçã Envenenada

Branca de neve. Sete anões. Não, não estamos tratando de fábulas infantis. Estes eram os nomes de usuários de e-mails ‘oficiosos’, utilizados por agentes da Siemens na troca de mensagens referentes aos esquemas de cartel, montados para fraudar licitações no sistema metroferroviário de São Paulo (Metrô e CPTM) (aqui).

As informações constam em documentos entregues ao CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) , após acordo de leniência assinado pela Siemens assumindo a prática de Cartel. No esquema, a empresa entrava em acordo com eventuais concorrentes, apresentando assim uma única proposta, de valor mais elevados, na compra de serviços e equipamentos para a manutenção do transporte sobre trilhos.

O esquema montado em São Paulo é apenas um desdobramento local de um comportamento (a)moral adotado pela empresa alemã (Siemens) nos últimos anos. Atuando em diversos países, nos cinco continentes, propinas eram pagas através de contas secretas mantidas em paraísos fiscais (aqui).

O conto de horrores é bastate ilustrativo, pois deixa claro que para haver corrupção é necessária a interação entre duas partes. Se, por um lado, está a imagem do político corrupto (quase um pleonasmo para o senso comum), recebendo vantagens indevidas, sucumbindo à tentação da maçã envenenada, por outro, está sempre um agente econômico de peso, representantes de grandes empresas ou grupos de interesses, que se utilizam de tais práticas visando o lucro, única e exclusivamente.

Contudo, não é essa a percepção da sociedade. A corrupção, vista por todos como o grande mal de nosso país, está diretamente relacionada à nossa classe política, que obviamente, dá motivo para tanto, mas não age sozinha. As responsabilidades devem ser compartilhadas. Se a sociedade cobra uma mudança de padrão ético de nossos representantes, devem cobrar também das empresas, coautoras na maioria dos escândalos. Fica claro que é um problema com raízes mais profundas da nossa formação social, e não apenas uma prática exclusiva de um grupo contaminado.

Histórico de escândalos
A Siemens, na década de 50, teve a sua imagem duramente abalada após revelações que a empresa se utilizou de trabalho escravo, prisioneiros dos campos de concentração nazistas, em suas linhas de montagens, durante a segunda guerra mundial. Outras empresas como a Thyssen-Krupp, Bayer e BMW também carregam essa mancha negra em seus históricos.

Sobre o evento, vale a pena o emocionado depoimento de um dos sobreviventes que trabalhou como escravo para a empresa durante a guerra (aqui).

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As Conquistas de Junho

Àqueles que se pretendem observadores atentos do cenário político e das movimentações sociais relevantes em nosso país, um tema se impõe de maneira muito clara: as manifestações de junho, que surpreenderam a todos, ganharam dimensão inédita e balançaram com a política , em seus mais diversos aspectos e camadas, atigindo também os mais diversos atores. Ao retomar a produção deste espaço, o tema se apresentava de antemão.

Desde então, muito se tem produzido, buscando analisar os eventos, desdobramentos e consequências das passeatas e manifestações que tomaram conta do Brasil, quase simultaneamente à realização da Copa das Confederações. Não pretendo aqui uma abordagem definitiva ou geral, buscando tratar de todos os aspectos envolvidos na questão, nem repetir as abordagens vistas por aí, seja na grande mídia ou em veículos alternativos, que por vezes apresentam analises completamente opostas.

Gostaria, justamente, de marcar duas das conquistas obtidas através da mobilização decorrente, e tendo esta como sua principal faceta, das passeatas que tomaram as ruas do país, e que não tenho visto com a devida frequência nos diversos meios, portanto cabe ressaltar.

A primeira delas é a condição inegociável da nossa liberdade de expressão e manifestação. O movimento eclode em toda sua força, justamente, depois das lamentáveis cenas de dura repressão polícial em manifestantes e jornalistas. Depois daquela quinta-feira, a sociedade passou claro recado que não aceitaria qualquer cerceamento em nosso direito de manifestação, e que desmandos policiais como aqueles não seriam tolerados. Combateriamos isso. De que forma? Indo ainda mais para as ruas. Foi assim que o movimento explodiu.

A segunda grande conquista, que precisa ficar ainda mais clara, é de que mobilização e manifestação são sim uma eficaz arma na busca por demandas específicas. Surpreendeu a rapidez com que as autoridades paulistas cederam e recuaram no aumento em vinte centavos na tarifa do transporte público, demonstrando inclusive, fraqueza política por parte das autoridades estaduais e municipais. Mas cabe frisar, uma pauta legitima, com mobilização também legitima, pode sim conseguir resultados satisfatórios, principalmente quando eclodem nessa dimensão.

O que vai acontecer no ano que vem, ano de copa e eleições, ninguém é capaz de saber. Só dá pra saber que será diferente. E que as manifestações sejam entendidas como um modelo de atuação de uma nova democracia 2.0, e não um arroubo, um momento de exceção. Se conseguirmos isso, daremos um salto na qualidade da nossa vida política, mesmo que não consigamos mudar tudo da  noite para o dia.

Espaço retomado.

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Meu coração – Arnaldo Antunes

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