Doria e a ovada merecida

anti-lula

Antes de ser recepcionado, em Salvador, com uma chuva de ovos, nesta segunda-feira (7), o prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), havia recebido afagos do impopular Michel Temer durante a manhã. Em cerimônia que transferiu para o município área do Campo de Marte que pertencia à Força Aérea, Temer chamou Doria de parceiro e companheiro, “Alguém que compreende como ninguém os problemas do País”.

Em delírio, Temer aposta no político tucano para superar a polarização, o “nós contra eles”, que afeta o país. “Jamais vi o João dividindo pessoas”, cravou o presidente golpista, em gesto de agradecimento ao político dublê de empresários, que apoia publicamente as ditas reformas que arrasam com direitos. Por essas, e outras, a ovada em Doria foi também um protesto contra Temer.

Doria não só não tem a mínima condição de se apresentar como um nome que deixaria para trás a polarização, como é produto da radicalização e surfa na onda do antipetismo. Após ser atingido, em mais um de seus usuais vídeos em redes sociais, Doria mandou seus algozes da ‘ovação’ para a Venezuela, sem deixar de citar Lula e o PT. Também aposta na divisão, e não na superação da polarização, a revista Isto É, que saudou Doria como o “anti-Lula”, em capa da edição deste final de semana.

Além da verborragia raivosa contra Lula e os “esquerdistas”, o prefeito paulistano também acirrou os ânimos de diferentes grupos, em pouco mais de sete meses à frente da prefeitura, por conta de uma série de medidas arbitrárias, higienistas, e de cortes em políticas públicas que podem ser interpretadas como violência institucional e simbólica, via de regra, contra setores mais fragilizados da população da capital.

Doria iniciou sua gestão alardeando guerra aos pixadores, que atingiu em cheio também os artistas do grafite. Os murais coloridos da Avenida 23 de Maio foram substituídos pelo cinza, em ação de censura estética, antes de dar lugar a um jardim vertical, nas últimas semanas.

Contra a tendência mundial de redução do limite de velocidade nas vias, adotada nas principais capitais do planeta com o objetivo de salvar vidas de motoristas e pedestres, Doria bancou o aumento das velocidades das marginais, e viu o número de mortes subir.

Com o slogan “Acelera”, o prefeito tucano também viu aumentar a animosidade entre motoristas e ciclistas. Somado à política de desmantelamento silencioso das ciclovias, o resultado transcende o simbolismo, com o aumento do número de mortes dos usuários das bicicletas também.

Usuários de drogas e a população de rua também foram vítimas de toda sorte de violências praticados pelos subordinados do prefeito, imbuídos do mesmo espírito higienista que quer varrer a suposta sujeira social da sua Cidade Linda. Da retirada de cobertores, aos jatos d’água durante as manhãs mais frias – que o prefeito classificou como “descuido” –, os que já não têm coisa alguma viram a cidade se tornar cada vez mais hostil.

Com toda truculência, incluindo porrada e bomba, em ação conjunta com a Polícia Militar comandada pelo governador Geraldo Alckmin, Doria chegou a declarar que “a cracolândia acabou”, quando ela continua aonde sempre esteve, depois de breve período em que os usuários se dispersaram por diversos pontos da cidade.

Também marcou o episódio em que paredes de um prédio, na cracolândia, eram destruídas, como uma casca de ovo, por tratores da prefeitura, mas ainda com gente dentro. A desastrosa demolição do imóvel resultou em três feridos. Já o programa Redenção, que deveria tratar dos dependentes, tem pífia adesão, como mostra reportagem da Folha de S.Paulo desta terça-feira (7).

Somam-se ainda os cortes no passe livre estudantil e no leite distribuído nas escolas de educação infantil, e também a redução do horário de atendimento de Unidades Básicas de Saúde (UBS) da zona sul da cidade, que deve ser estendida para o restante do município.

Os baianos que protestaram ontem contra Doria talvez também se lembrem de uma antiga proposta defendida pelo prefeito de São Paulo, em 1987, quando era presidente da Embratur durante o governo Sarney, de transformar a seca do Nordeste em atração turística, sugerindo o corte de verbas de irrigação destinadas a reduzir os efeitos nefastos da estiagem.

Por tudo isso, a ovada levada pelo prefeito-empresário, que deve visitar outras três cidades e capitais do Nordeste neste mês, pode significar uma forma de resistência e combate para que tal maneira de fazer política representada por Doria não ultrapasse os limites e divisas de São Paulo.

Parafraseando o chavão liberal, adotado com frequência pelos adoradores do prefeito, não existe ovada grátis.

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