O olhar do intelectual

Afinal, o quê são os intelectuais? Qual a sua função e importância? Será que o intelectual é aquele seu colega da sala de aula, introspectivo, de óculos pesados, de poucos amigos? Ou é aquele chato da mesa de bar que só quer falar de política ou da última sensação do cinema Iraniano? Ou, ainda, aquele outro que está sempre atrás de uma pilha de livros? São esses os estereótipos que aparecem com frequência por aí, e como tais, guardam certas doses de verdade, muito preconceito e outras distorções.

O termo aparece pela primeira vez há pouco mais de cem anos, na França, no momento em que pegava fogo a polêmica em torno da condenação de um oficial do exército francês, René Dreyfus, de origem judaica, condenado por alta traição. Dentre as vozes que se insurgem contra a decisão do governo, ganha enorme destaque a figura do escritor Émilie Zola. Já conhecido romancista naturalista, com preferência pelos temas sociais, que no célebre texto J’acusse (Eu acuso), acusa as autoridades de perseguição religiosa, de antissemitismo, sendo esse o principal motivo para a condenação do oficial, e em nome da verdade, conclama seus pares e outras prestigiosas figuras da cena acadêmica e artística a se pronunciarem sobre o caso.

Desse caso, conseguimos captar a importância do intelectual. É aquele que não foge a uma boa briga. De ideias, é claro. Que, sempre que necessário, busca se engajar no debate público. Disposto a bater de frente com o senso comum, a peitar o discurso oficial e desvelar as motivações obscuras por trás das práticas e das velhas ideologias das autoridades. Sempre comprometido com os valores do humanismo e da verdade, das questões sociais mais profundas.

Portanto, a função do intelectual não está relacionada apenas ao conhecimento e sua busca. Um cientista, por exemplo, pode ser e pode não ser um intelectual. Se ficar preso ao laboratório, interessado apenas no comportamento de átomos e moléculas e no desenvolvimento de teorias que expliquem a origem do universo, não o é. Mas, se por outro lado, esse mesmo cientista marca sua posição num debate, contra ou a favor, como da utilização das células-tronco, do aborto ou de tantos outros temas, baseando seus argumentos em reflexões e estudos, aí sim, age como um intelectual.

O intelectual sequer precisa ser um especialista ou estar inserido no mundo acadêmico. Antonio Gramsci, filósofo, escritor, jornalista e, portanto, um intelectual, afirma que todo grupo social produzirá “organicamente” os representantes da sua ideologia, valorizando mais a “ação social” do intelectual, do que a sua escolaridade específica. O individuo de determinada classe, com vivência impar e disposto ao debate, mesmo sem ter se sentado num banco de universidade, pode ser também um intelectual. Por exemplo, o rapper Mano Brown, líder dos Racionais Mcs, pode se encaixar nesse perfil? Sem sombra de dúvidas.

E o jornalista? Pode se relacionar com essa questão de duas formas: Ora cumpre importante papel ao abrir o canal para que fale o intelectual, para que o especialista possa dar a sua contribuição e entrar em debate com seus equivalentes e falar também com toda a sociedade. O jornalista pode, e deve, também, à revelia da ditadura do imparcial, participar ativamente de toda discussão pública em que tenha alguma contribuição a dar. O especialista em generalidades é também um intelectual.

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