Obscenidades da Educação Paulista

Neste início de segundo semestre letivo fomos mais uma vez surpreendidos por polêmicas em torno dos livros distribuídos pela Secretaria de Educação do Estado de São Paulo (SEE). Juntamente com outros dois títulos que compõem o programa ‘Apoio ao Saber’, a SEE entregou aos alunos do terceiro ano do ensino médio a coletânea ‘Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século’. No centro da questão, que tem causado alvoroço entre pais, alunos e professores, está o texto ‘Obscenidades Para uma Dona de Casa’ do escritor Ignácio Loyola Brandão.

Nele, que narra fantasias amorosas de uma mulher, o autor se utiliza de palavrões e termos chulos, além de descrições apimentadas de um ato sexual. Os moralistas, notadamente pais e certos professores, sentiram-se ofendidos com o texto. Já os alunos, com toda irreverência e furor típicos da juventude, esbaldam-se com o conteúdo erótico.

Como em todo ambiente plural e democrático, as opiniões divergem e o debate pega fogo. As discussões vão desde a escolha dos autores, se mereceriam ou não figurar numa lista dos ‘cem melhores’, outros tantos autores que ficaram de fora, e principalmente, se os textos selecionados atendem as necessidades pedagógicas e linguagem adequada ao ambiente escolar.

Os progressistas apontam a necessidade de estimular o debate sexual tanto nas escolas quanto nos lares, e alegam que as ‘obscenidades’ ali constantes não são piores que aquelas presentes em outros setores. Ainda sim, cabe de novo perguntar se a abordagem é a mais apropriada do ponto de vista pedagógico.

Os desdobramentos são mais graves, na medida em que nem os pais, nem os alunos, nem os professores, participaram da seleção do conteúdo. Os livros, ainda que distribuídos gratuitamente, foram comprados com dinheiro do contribuinte, o que garante a cada pai ou mãe, cada professor e cada aluno o direito de questionar tal ação.

Além das questões pedagógicas, a compra de tal livro suscita outro tipo de preocupação. A dita coletânea é editada pela Objetiva, pertencente ao grupo espanhol Prisa-Santillana. Não haveria problemas se não fosse a reincidência das relações econômicas entre a SEE e tal grupo. Em outra ocasião, a Secretaria comprou, sem licitação, assinaturas do jornal espanhol ‘El País’, do mesmo grupo.

E mais, no site da Fundação Santillana no Brasil, descobrimos que seu conselho consultivo é formado pelos tucanos Fernando Henrique Cardoso e pelo atual Secretário de Educação do Estado, Paulo Renato Souza, além dos Senadores Cristovam Buarque e José Sarney e a Nélida Pinon. As práticas econômicas se assemelham àquelas tratadas neste espaço no texto ‘A Educação Estadual, os lobistas e a Editora Abril. Não parece deslize, parece método, que se repete a cada nova situação.

Todos esses eventos demonstram a necessidade de toda a comunidade escolar (alunos, pais, professores, diretores, funcionários) manter a vigilância tanto na aplicação dos impostos na área da educação, como na relação com a qualidade do conteúdo dos materiais distribuídos. Afinal, foram comprados com nosso dinheiro e oferecidos aos nossos alunos.

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