Muito se fala do poder da mídia no Brasil e no mundo, desde sempre. Alguns chegam a falar num ‘quarto poder’, em complementação à estrutura clássica de organização política dividida em três poderes: executivo, legislativo e judiciário. No nosso país, o poder de influência dos grandes grupos de mídia já faz parte inclusive do ideário nacional. É comum ouvirmos, em taxis ou mesas de bares, que a Globo elegeu ou derrubou esse ou aquele presidente. Exageros à parte, é inegável o poder de influência da grande mídia. Inegável também o histórico de manipulações, bem e mal sucedidas. Lula, Collor, Brizola…
Voltamos a 2010 com a campanha presidencial, que entrou numa fase decisiva. Justamente a fase em que os candidatos estabelecem situações de contato e diálogo com os veículos de mídia. Sabatinas, debates, entrevistas. Uma prova de fogo para aqueles que desejam se eleger. O primeiro debate, ocorrido na semana passada e transmitido na Band, pouca coisa trouxe de novo. Cautela e certa decepção generalizada. Ninguém saiu empolgado, derrotado ou satisfeito. Nem políticos, jornalistas, e partidos, nem os eleitores-espectadores.
Nos últimos dias, os candidatos foram submetidos a novos testes de resistência. Tiveram que enfrentar a mais importante, temida e respeitada cadeira do jornalismo brasileiro, o Jornal Nacional. Ao lado de Willian Bonner, que ocupa a principal cadeira, sua mulher, Fátima Bernardes, cumpre o papel de primeira-dama . Trata-se do principal programa jornalístico da principal rede televisiva do país, como todos sabem. Formam um belo casal, de vasta experiência, e íntimos das famílias de todo o país.
Dilma foi primeiro. Pelo seu desempenho, recebeu uma rosa do Presidente Lula, que a aconselhou: “não fique nervosa nunca, não perca as estribeiras nunca, não aceite provocação nunca, porque a verdade nua e crua é que tem muita gente com medo que uma mulher possa provar que tem mais capacidade de fazer muita coisa do que os homens já fizeram”.
Digamos que Bonner tenha sido um pouco deselegante e impertinente na entrevista. Trabalharam com estereótipos e preconceitos. O jornalista da Record e blogueiro Carlos azenha assinalou a contradição “Teria um ‘temperamento difícil’, teria ‘maltratado’ colegas. Mas, ao mesmo tempo, não conseguiria governar sem Lula, o tutor.”. Fala Dilma: “Você sabe, Bonner, o pessoal tem de escolher o que é que eu sou. Uns dizem que sou mulher forte, outros que eu tenho tutor.”
A experiência, Bonner parece ter deixado em casa, e foi preciso inclusive que sua mulher interviesse para que pudesse prosseguir a entrevista num melhor caminho “Só um minutinho”, roubando-lhe a palavra que ele a todo momento tentava roubar de Dilma.
Digamos que a Globo e seus jornalistas, comandados atualmente por Bonner, ainda que insistam na suposta imparcialidade, são ainda mais impacientes com o PT. A grande mídia como um todo não apóia Lula e o PT, pelo contrário. Vale também para a Veja, a Folha.
Dois dias depois, foi a vez de Jose Serra. Aí sim, um bom desempenho do casal, perguntas pertinentes foram feitas, no tom necessário. Complacência demais com o entrevistado colocaria de vez a respeitabilidade do jornal em risco. Como bom jornalista, faltou esclarecer, ao tratar do pedágio, que a iniciativa privada arrecadou mais de 3 bilhões de reais só esse ano. As estradas de São Paulo estão ótimas, mas cheias de pedágio. E caríssimas. É esse o modelo para o país?

Outro dia eu estava lendo o blog do repórter Marcelo Migliaccio, do JB, e vi um post colocado por um leitor, que vou registrar aqui: “Quando questionada se o PT havia errado antes ou agora, sobre o apoio do Collor, ela deveria ter devolvido a pergunta à Globo, que o elegeu e agora o detrata. O cinismo pragmático da Globo é imbatível, mas agora, acrescido do desespero pela derrota iminente do seu candidato, nos regala com este espetáculo de baixarias.” (http://www.jblog.com.br/rioacima.php?itemid=23011#nucleus_cf). O fato é que a imprensa brasileira, com raríssima exceções, acaba não só levando a notícia ao seu leitor como também a formar opinião, tomando partido de A ou B conforme sua conveniência, quase sempre se valendo dos dados (pouco confiáveis…) dos órgãos de pesquisa (IBOPE, DATAFOLHA, VoxPopuli…). De um lado, grandes corporações como a Editora Abril e as Organizações Globo, através de seus meios de comunicação, orientando seu leitor / espectador a “entender o que é certo e errado”. Do outro, canais independentes que induzem o seu leitor a pensar que existe uma grande conspiração, fazendo campanha fervorosa a favor de um candidato de sua escolha que permita evitar o domínio de quem detém o poder. Talvez, se fosse prezado pelo simples, ou seja, a divulgação da notícia e deixando que quem lê tome suas próprias conclusões, haveria mais critério na escolha das pessoas que dirigem esse país. “Todo o homem, por natureza, deseja saber.” – Aristóteles