A última semana que antecede o período de festas trouxe dois eventos que colaboram para uma maior definição do cenário da corrida presidencial: o anúncio da retirada da pré-candidatura à do governador mineiro Aécio Neves e a divulgação da pesquisa Datafolha, último instituto a apresentar seus números na atual rodada de pesquisa, e provavelmente, a última do ano. Dado o recesso do período de festas, 2010 deve abrir mais ou menos como fechou o ano. A contra-gosto, Serra agora é candidato. E contrariando as perspectivas mais negativas, Dilma Rouseff entra o ano como uma candidata competitiva.
O anúncio da retirada de Áecio Neves da disputa pelo Palácio do Planalto impõe uma redefinição à candidatura de José Serra. Avesso à decisões, o governador de São Paulo terá que assumir de vez a condição de candidato do grupo de oposição. Arcará com o bônus e o ônus da nova condição. Como único nome do partido e do bloco de oposição, ganhará maior visibilidade e também passará a ser o único alvo dos ataques de Lula e sua tropa. Se o candidato paulista parou de decair, a clara tendência agora é a da estagnação. A ver como seu nome se comporta nas pesquisas sob intensa artilharia a partir do próximo ano.
A candidatura da ministra Dilma, encarada por muitos como mais uma das bravatas de Lula, já é uma realidade. A cada nova pesquisa, a ministra amealha mais alguns pontos percentuais das intenções de voto, chegando no último levantamento Datafolha à casa dos 23%. Números confortáveis para uma estreante em eleições e que ainda não está em campanha oficialmente. Foi alçada a tal patamar apenas colando-se a imagem do presidente, participando de inaugurações de obras e estrelando o último programa do partido. Dada a estagnação, na casa dos 37%, do candidato que nega ser candidato, a diferença entre os dois cai a cada nova consulta.
A incerteza fica por conta dos rumos do pré-candidato Ciro Gomes. A cada subida de Dilma, seu nome passa a ser menos imprescindível. Por outro lado, a opção ou imposição do nome de Serra faz com que Ciro afie suas garras. Dadas as excentricidades comuns a cena política brasileira, poderemos ver o embate entre o candidato da oposição e o candidato da oposição à oposição. Resta saber se Dilma sairá ilesa do fogo-cruzado ou se, além de ferida, pode ser ofuscada a partir da polarização do debate. Outra certeza é de que o nome de José Serra, bem mais do que o de Aécio, facilita a estratégia plebiscitária do governo. É mais fácil associar a chamuscada imagem do ex FHC à Serra, que fora seu ministro por duas oportunidades. A chapa “puro-sangue”, propagandeada por Fernando Henrique como um “sentimento nacional” só deve acontecer caso Dilma desponte como favorita e faça soar o alerta para o tucanato. Até 2010.