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A última semana que antecede o período de festas trouxe dois eventos que colaboram para uma maior definição do cenário da corrida presidencial: o anúncio da retirada da pré-candidatura à do governador mineiro Aécio Neves e a divulgação da pesquisa Datafolha, último instituto a apresentar seus números na atual rodada de pesquisa, e provavelmente, a última do ano. Dado o recesso do período de festas, 2010 deve abrir mais ou menos como fechou o ano. A contra-gosto, Serra agora é candidato. E contrariando as perspectivas mais negativas, Dilma Rouseff entra o ano como uma candidata competitiva.

O anúncio da retirada de Áecio Neves da disputa pelo Palácio do Planalto impõe uma redefinição à candidatura de José Serra. Avesso à decisões, o governador de São Paulo terá que assumir de vez a condição de candidato do grupo de oposição. Arcará com o bônus e o ônus da nova condição. Como único nome do partido e do bloco de oposição, ganhará maior visibilidade e também passará a ser o único alvo dos ataques de Lula e sua tropa. Se o candidato paulista parou de decair, a clara tendência agora é a da estagnação. A ver como seu nome se comporta nas pesquisas sob intensa artilharia a partir do próximo ano.

A candidatura da ministra Dilma, encarada por muitos como mais uma das bravatas de Lula, já é uma realidade. A cada nova pesquisa, a ministra amealha mais alguns pontos percentuais das intenções de voto, chegando no último levantamento Datafolha à casa dos 23%. Números confortáveis para uma estreante em eleições e que ainda não está em campanha oficialmente. Foi alçada a tal patamar apenas colando-se a imagem do presidente, participando de inaugurações de obras e estrelando o último programa do partido. Dada a estagnação, na casa dos 37%, do candidato que nega ser candidato, a diferença entre os dois cai a cada nova consulta.

A incerteza fica por conta dos rumos do pré-candidato Ciro Gomes. A cada subida de Dilma, seu nome passa a ser menos imprescindível. Por outro lado, a opção ou imposição do nome de Serra faz com que Ciro afie suas garras. Dadas as excentricidades comuns a cena política brasileira, poderemos ver o embate entre o candidato da oposição e o candidato da oposição à oposição. Resta saber se Dilma sairá ilesa do fogo-cruzado ou se, além de ferida, pode ser ofuscada a partir da polarização do debate. Outra certeza é de que o nome de José Serra, bem mais do que o de Aécio, facilita a estratégia plebiscitária do governo. É mais fácil associar a chamuscada imagem do ex FHC à Serra, que fora seu ministro por duas oportunidades. A chapa “puro-sangue”, propagandeada por Fernando Henrique como um “sentimento nacional” só deve acontecer caso Dilma desponte como favorita e faça soar o alerta para o tucanato. Até 2010.

O jogo duro do PMDB

 

Ainda vem repercutindo a declaração do presidente Lula dada na semana passada, em visita ao Maranhão, sugerindo que o PMDB ofereça uma lista tríplice de possíveis candidatos para ocupar o posto de vice na chapa liderada pela petista Dilma Roussef. As palavras do presidente causaram irritação à cúpula do PMDB, que reclamam de ingerência de Lula sobre os assuntos supostamente internos do partido.

Todos sabem que o noivado celebrado há meses atrás entre as duas legendas não é pautado por sinceras relações amorosas e da dificuldade de qualquer partido em se associar a nomes como José Sarney, Jader Barbalho, Renan Calheiros, dentre outros. O nome mais cotado, até então, para subir ao altar, ou palanque, ao lado de Dilma era o do deputado federal e presidente da câmara Michel Temer. Ainda que seja uma importante liderança dentro do seu partido, principalmente frente aos setores lulistas, Temer não é lá um campeão de votos. Nas últimas eleições, por muito pouco não ficou de fora do Congresso Nacional. Além da fraqueza das urnas, e a ela relacionada, ainda que, até o momento, não tenha sido pego em maracutaias, a imagem do deputado não está diretamente ligada a virtudes ou atitudes progressistas. Representaria muito mais as velhas práticas políticas de duras negociações por altos e médios postos no governo em troca de apoio político.

Com todas essas ressalvas, no atual cenário, o PMDB ainda se mostra imprescindível. Daquelas peculiaridades que quase viram regra no confuso cenário político, o partido possui a maior bancada nas duas casas do Congresso, Câmara e Senado, o maior número de prefeitos, mas está longe de ter um projeto nacional. A colcha de retalhos tecida pelos diversos caciques regionais e a falta de nomes de alcance nacional, impedem que o partido vá às urnas com um nome próprio. A tese da candidatura própria, no caso, do Governador do Paraná Roberto Requião, serve apenas ao jogo duplo do partido, ainda que “pré-aliançado” com o PT, flerta com outros pretendentes, como já virou tradição na política nacional. Sequer seria possível acusar o partido de traição. Como já dito anteriormente, a aliança é um casamento de interesses. Quem oferecer mais, leva.

E o dote que o PMDB tem à oferecer, cobiçado por qualquer noivo ou noiva, além da enorme quantidade de cabos eleitorais espalhados por todo o país, é o tempo do horário eleitoral gratuito. Dada a proporção de sua bancada, o partido é capaz de agregar minutos preciosos à candidatura que decida apoiar. Para Dilma, ainda pouco conhecida pelo eleitorado como um todo, o tempo de televisão é ainda mais valioso. A alternativa, que causa enorme desconforto aos caciques PMDBs é do nome do recém filiado ao partido Henrique Meirelles. Este sim, identificado com valores relacionados a boa administração, capaz de agregar algo mais a candidatura Dilma. Além de potencial nas urnas, que não deve ser desprezível, o banqueiro seria capaz de trazer o apoio do setor financeiro e do mundo dos negócios. As certezas são duas: o noivado com o PMDB custará caro e, independente de quem seja o cônjuge, o partido estará no governo, esta sim, situação que o partido nutre verdadeira paixão, ser governo sob qualquer hipótese.

Margem de erro

 

Na última segunda-feira (7), foi divulgada nova pesquisa de intenção de votos para a eleição presidencial realizada pelo CNI/Ibope. As manchetes dos principais jornais traziam com destaque o aumento de 2% de Serra e Dilma. A elevação idêntica entre os dois principais candidatos pouco altera o cenário da sucessão. No entanto, o que chama a atenção são os números discrepantes quando confrontados com àqueles apresentados pela última pesquisa CNT/Sensus do dia 23, tratado há duas semanas neste espaço.

A comparação é facilitada pelas datas bastante próximas em que foram realizados os levantamentos, ainda que alguns aleguem diferenças metodológicas. Os pesquisadores da Sensus foram às ruas entre os dias 16 e 20 de novembro. Já os do Ibope foram ao encontro dos entrevistados entre os 26 e 30. Entre os dias 16 e 30 de novembro, período contemplado pelas pesquisas, nenhum grande evento na cena política foi percebido. Apagão e queda do viaduto do rodoanel, antes. Arruda e o mensalão do DEM, depois. Aos números.

O levantamento do Ibope traz José Serra com 38% das intenções de voto, frente aos 35% registrados pelo mesmo instituto em setembro. Já a ministra Dilma passou de 15% para 17%. Ambos evoluíram dentro da margem de erro da pesquisa de 2%. As diferenças com relação ao levantamento do instituto Sensus vão dos números (Serra com 31,8%, Dilma 21,7%), mas principalmente da tendência apresentada pelos candidatos. O candidato tucano mantinha uma clara tendência de queda, despencando cerca de 15% em um ano. A grande novidade da pesquisa Ibope é, portanto, a retomada do candidato tucano nas pesquisas.

Quanto à candidatura de Ciro Gomes, as pesquisas também não concordam. No Ibope, queda de 17% para 13%. Na Sensus, o movimento é exatamente o contrário. Como já dito anteriormente, a falta de eventos políticos que justifiquem mudanças significativas num curto espaço de tempo coloca em xeque os números apresentados. As suspeitas recaem mais intensamente sobre o Ibope, dado o histórico de “equívocos” em eleições passadas e a casos, no mínimo estranhos, na atual série dos levantamentos. Para ilustrar a confusão, segundo levantamento de junho, o candidato tucano era conhecido por 76% do eleitorado. Três meses depois, o percentual registrado era de 66%. Ficou menos conhecido? E na atual pesquisa, a candidata Dilma é conhecida por 32% do eleitorado, mas rejeitada por 41%. Tais estranhezas só poderão ser esclarecidas quando vierem à tona um novo levantamento, que comprove ou refute o movimento captado pelo Ibope.

A farra dos panetones

 

Até a semana passada, o governador do DF, José Roberto Arruda era cotado como vice numa chapa liderada pelo tucano José Serra. Até a semana passada, o DEM buscava, sem convencer muito, empunhar a bandeira da ética, expediente comum aos partidos de oposição. Depois dos eventos que vieram à tona na última sexta-feira, tais propostas ruíram como um castelo de cartas. O DEM junta-se ao clube dos partidos que utilizaram da prática do chamado “mensalão”.

O esquema de corrupção investigado pela Polícia Federal reúne diversas das piores práticas no mundo da política. Contratos de empresas privadas superfaturados, recompensados com propinas, que alimentavam caixa dois de campanha e eram utilizados na compra de apoio de deputados na câmara distrital. Atinge em cheio o primeiro escalão do governo do Distrito Federal. Governador, vice, secretários, presidente do legislativo e deputados da base aliada. Dinheiro para todo lado. Bolso, bolsa, paletó, cueca e meias.

Diferente dos outros casos do mensalão do PT ou o caso do PSDB mineiro, em que havia a figura de um operador, no caso do DF, ao que parece, era o próprio governador que coordenava todo o esquema, auxiliado por um assessor que operava maracutaias para o rival Joaquim Roriz, ex-governador. Arruda já frequentara as páginas do noticiário em escândalos de repercussão nacional, no caso da violação do painel do Senado, quando ocupava o cargo de líder do governo FHC, à época filiado ao PSDB.

Naquela ocasião, primeiro negou todas as acusações, chorou na tribuna, jurou pelos filhos. De nada adiantou, e por fim, renunciou para não ser cassado, reaparecendo no PFL repaginado. Na atual situação, alega que os 50 mil reais com que foi flagrado seriam para a compra, e posterior doação de panetones aos mais carentes. Coleciona diversos pedidos de impeachment e a expulsão do partido é dada como certa. E ele ameaça: se o partido radicalizar, ele radicaliza também. Arruda teria envolvimento com a captação de doações de campanha para outros candidatos, inclusive o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab. Já é dado como morto politicamente, resta saber o tamanho do estrago a imagem do DEM, e o quanto respinga ao co-irmão PSDB. Difícil calcular também o estrago na cena política do DF. Centro do poder, parece concentrar apenas o que há de pior.

Nos planos de Lula

 

Diziam os estrategistas ligados ao governo e ao PT que para que a candidatura da Ministra Dilma Rouseff se torna-se viável, deveria alcançar a casa dos 20 pontos nas pesquisas até o final do ano. Pois bem. De acordo com a pesquisa CNT/Sensus divulgada na última segunda-feira (23), Dilma alcança 21,7% das intenções de voto. A liderança ainda é do governador de São Paulo, José Serra, com 31,8%. No entanto, verifica-se que o candidato tucano continua em queda livre. Há um ano atrás, computava 46,5% da preferência dos eleitores. Compõem o cenário mais provável Ciro com 17,5% e Marina Silva com 5,9%.

A estratégia defendida por Lula, do “nós contra eles” parece render frutos. A queda acentuada de Serra,estaria relacionada ao apoio do ex-presidente Fernando Henrique. Segundo dados da pesquisa, quase metade do eleitores (49,3%) dizem se recusar a votar no candidato apoiado por FHC contra 17,2% dos que dizem votar junto com o ex-presidente. Para Lula, a situação se inverte. Apenas 16% dizem não votar no candidato do Lula, enquanto 51,7% votam, ou poderiam votar, com o presidente.

Por esse prisma, a candidata do PT poderia ao menos dobrar seus números nos próximos meses, apenas escorada na popularidade do presidente. O que não é pouca coisa. Ao que parece, nunca antes na história desse país, um candidato (ou candidata no caso) contará com um cabo eleitoral tão forte. Além dos altos percentuais de transferência de voto, o presidente continua a sustentar elevadíssimos índices de popularidade na casa de 80%. A aprovação do governo também vai longe, chegando aos 70%.

Por fim, a candidatura de Ciro Gomes continua a embaralhar o pleito. Entre os candidatos, foi aquele que registrou maior queda no índice de rejeição e fica claro que sua candidatura rouba mais votos de Serra do que de Dilma. Com Aécio no lugar de Serra, Ciro assume a ponta. Com o resultado dessa última pesquisa, a luz amarela deve ter acendido para a oposição. Se com Serra, uma de suas caras mais conhecidas, só olham para baixo, ainda mais quando apoiado por FHC. Não resta alternativa a não ser apoiar o novo. Se Aécio for derrotado, ainda sim ganhará enorme musculatura para os pleitos futuros. Já para Serra, uma nova derrota seria como uma pá de cal na sua carreira política.

Isolado e em silêncio

A campanha para 2010 só não começou no calendário oficial. De todos os lados notam-se as movimentações visando garantir a viabilidade das candidaturas. Do lado do governo, Dilma busca assegurar para a sua candidatura os partidos que hoje compõem a base do governo Lula. Ciro e Marina tentam abrir espaço num cenário altamente polarizado. Aécio cobra definição do PSDB. Apenas uma das peças centrais permanece inerte no tabuleiro. Acomodado na liderança das pesquisas, a política de José Serra é não fazer política.

A percepção é que assumindo a condição de candidato, Serra viraria alvo fácil das artilharias pesadas de Lula e comandados. Comporta-se como se não fosse oposição e parece acreditar que será levado, naturalmente, ao cargo dos seus sonhos. No momento em que aproximações e alianças deveriam ser construídas, os parceiros o acusam de jogar sozinho. Gabriel Chalita, o vereador mais votado de São Paulo, recentemente se desligou do PSDB alegando não haver espaço no partido controlado por Serra. Líder nas pesquisas para sucedê-lo como governador, Geraldo Alckmin não conta com o apoio do atual ocupante do cargo.

Na falta de parceiros, o governador coleciona desafetos no partido e naqueles considerados como aliados. O presidente do DEM, Rodrigo Maia, já manifestou sua preferência por Aécio Neves. Seu pai, o ex-prefeito do Rio César Maia, vai ainda mais longe. Para ele, Serra “lembra os piores caudilhos” por subordinar o partido à sua definição pessoal. As poucas manifestações de entusiasmo com a candidatura serrista sobram para figuras como Paulo Malluf e Quércia. Perdeu, sem sombra de dúvidas, a capacidade de aglutinar, agregar, das mais fundamentais para qualquer político.

Por outro lado, Aécio traz Ciro Gomes pra perto. Outros como o ministro Hélio Costa e o senador Francisco Dornelles também já manifestaram apoio caso o mineiro viabilize a candidatura. Ao autoritarismo de Serra, apresenta-se como representante da tradição conciliatória mineira, e além de alegar que Serra pode não ser candidato, avisa que o país pode parar caso o paulista assuma a presidência. Se os que estão “próximos” pensam assim, os grupos contrários nutrem verdadeira repulsa pelo tucano paulista. Enquanto Serra decide o que quer, os outros dizem que não o querem.

A Geni da Uniban

 

Ela é feita pra apanhar, ela é boa de cuspir. E o personagem da canção de Chico Buarque re-encarnou numa universidade de São Bernardo. A Geni da Uniban atende pelo nome de Geyse e o motivo para que lhe jogassem pedra foi o comprimento de seu vestido rosa. O caso vem dando pano pra manga, culminando, inclusive, com a expulsão da moça de curvas voluptuosas. Depois de toda a repercussão negativa, a instituição voltou atrás, deixando claro que os argumentos de base moralista, expostos em nota, não se sustentam. Por qualquer ângulo que se queira olhar, os eventos assustam. Uma turba de 700 ditos estudantes ameaçando a pobre moça com todo tipo de violência. E o linchamento moral se consumou. Celulares empunhados como armas, e a execração caía na internet.

Chama ainda mais a atenção o local e o grupo envolvidos na escandalosa situação. Fosse ocorrido numa igreja tomada por beatas, ainda que não diminua a transgressão, seria menos estarrecedor. Vai além do inaceitável que tais ato de exclusão e expulsão tenham ocorrido justamente em um ambiente que deveria se dedicar à integração, à reflexão, à tolerância e ao convívio das diferenças.

E mais. Os jovens e estudantes são historicamente identificados com a defesa de concepções progressistas. Vão, inclusive, para além do progressismo. Contestação e transgressão de valores são quase uma marca. Não da pra imaginar que os jovens engajem-se na defesa de causas políticas e sociais quando apegados a valores tão ruins. Durante a ditadura, os militares eram constrangidos a não adentrarem os espaços das universidades. Neste caso último, foi necessário que policiais fossem chamados para escoltar a jovem, sob ameaça, inclusive, de estupro. Um absurdo.

O discurso de que “todos tem culpa” apenas colabora para uma distorção de valores ainda maior. Não da pra engolir que uma moça não tenha o direito de escolher livremente seus trajes. A punição deveria recair sobre os agitadores da horda bárbara. Nunca um vestido curto fez mal a ninguém. Pelo contrário. E mais. A situação beira o surreal em pensar que o ocorrido se dá no país do carnaval, de clima quente, habituado desde os tempos dos índios aos corpos desnudos, onde as belas curvas da mulher são tratadas quase como patrimônio nacional. Faz lembrar a época de Jânio Quadros que tentou, inutilmente, proibir o biquíni. Contra as Geyses e Genis, Jânio presidente!

Sem bandeiras

 

No último domingo (1), assim como todo primeiro domingo de cada mês, alguns dos principais jornais do país trouxeram mais um dos artigos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Fugindo das generalidades habituais, o último texto vem carregado de críticas ao governo federal e ataques direcionados ao presidente Lula. FHC fez o que a oposição se recusa a fazer: oposição. Salvo a tradicional fabriqueta de escândalos em conluio com a grande mídia, os supostos oposicionistas evitam entrar em rota de colisão com o governo e temem, como nunca, os elevadíssimos índices de popularidade do atual presidente. No entanto, salvo a forma de crítica mais incisiva, uma análise mais detalhada do texto demonstra a fraqueza do discurso de oposição.

Dos mais renomados sociólogos do país, Fernando Henrique pareceu despir-se das vestimentas de intelectual, apelando para comparações vazias e descabidas. Afinado com o discurso da grande mídia, demonstra o mesmo desespero ao adotar o alarmismo como estratégia. “A enxurrada de decisões esdrúxulas, frases presidenciais aparentemente sem sentido e muita propaganda talvez levem as pessoas de bom senso a se perguntarem: afinal, para onde vamos?”. Supera até os mais ácidos críticos que, se descordam dos caminhos traçados, não chegam a apontar tal cenário de falta de comando ou inoperância. Faltou também listar a “enxurrada de decisões esdruxulas”. De certo, não levou em conta todas aquelas que contribuíram para que o Brasil conseguisse contornar rapidamente a última onda de crise econômica mundial. E de crise, ele entende. Tradicional participante do FMI, mas não na atual condição de credor.

Não ousa sequer tocar nas questões referentes às políticas sociais. Ao ignorar economia e políticas sociais, abre mão de discutir dois dos três mais importantes pontos da agenda do país. Sobra a discussão política, concentrando-se no que ele mesmo classificou de “pequenos desvios”. Ai começa o show de grandes desvios acadêmicos em que, com frágil argumentação, compara Lula aos militares, a Perón, aos mexicanos do PRI, a Luís XIV. Ditadores, populistas, absolutistas… Na tentativa de colar um rótulo, qualquer rótulo, não consegue fazer pegar nenhum.

Falta foco na análise. Procura tratar de todos os problemas, e não aprofunda um tema sequer. Mistura petróleo, caças, Irã, campanha, BNDES etc. Só acerta, mas também sem se debruçar de maneira mais detalhada, ao apontar problemas no quadro político com o enfraquecimento de uma série de partidos que passam a gravitar em torno do poder. Foi assim com ele, e é assim com Lula. Num momento em que o mundo da política enfrenta continuo desgaste, o PSDB e a oposição erram tremendamente ao não empunharem a bandeira da Reforma Política. Todas as outras reformas , propagandeadas como fundamentais para o país só passarão após uma reforma política exitosa. A bandeira ta aí, e a oposição continua sem qualquer bandeira. No mais, fica a frase do próprio ex-presidente: “Esqueçam o que escrevi”.

Chamou a atenção a notícia trazida pelo jornalismo da Rede Record que aponta para uma queda acentuada da circulação de jornais impressos por todo o país. Segundo dados do IVC (Instituto Verificador de Circulação), a redução do número de exemplares vendidos é de cerca de 5%. Os maiores jornais do país, Folha e O Globo, verificaram quedas ainda maiores, na casa de 7% e 8% respectivamente. A Associação Nacional de Jornais avalia que os números são reflexo da crise econômica global. Análise simplificada, ao desconsiderar outros dois importantes fatores que contribuem para o fenômeno: A consolidação da internet e a partidarização dos veículos de mídia.

Na medida em que as perdas dos jornais são maiores do que as registradas em outros setores da economia, não fica claro os motivos que fizeram com que a crise não fosse apenas uma “marolinha” para o setor. De maneira geral, na última década, os jornais no mundo todo perdem tiragem, mas essas ficam na casa dos 3% ao ano. As quedas estariam relacionadas as mudanças promovidas pela internet, com a contínua migração de leitores do papel para o meio virtual. Uma mudança inevitável que, inclusive, é acompanhada pelos próprios jornais que passam a aderir cada vez mais às publicações online e gratuitas.

Por outro lado, com as quedas que extrapolam as intempéries econômicas e vão além da crise vivida globalmente pelo modelo impresso, não há como negar, ainda que os próprios veículos relutem em assumir, que os grandes jornais passam por uma crise de credibilidade, com impacto correspondente nas vendas. E tal crise está diretamente relacionada a crescente “partidarização” dos veículos de mídia, e de maneira mais sintomática, dos grandes jornais. Aquilo que o conceituado jornalista e blogueiro militante Paulo Henrique Amorim chama de PIG – Partido da Imprensa Golpista. Nas palavras do próprio “Em nenhuma democracia séria do mundo, jornais conservadores, de baixa qualidade técnica e até sensacionalistas [...]têm a importância que têm no Brasil”.

Ilustrativo o caso da Folha de São Paulo que, desde o início do ano, encontra-se numa escalada de denuncismos visando enfraquecer figuras ligadas ao governo Lula. Em favor de tal posicionamento partidário, pisam em cima de qualquer critério do bom jornalismo, forjando supostas “provas”, como no caso da ficha falsa da Dilma, requentando notícias, prática corrente durante os escândalos do Senado relacionados à José Sarney, ou causando um verdadeiro imbróglio sem importância no caso “Lina Vieira”. Sem falar em posicionamentos estapafúrdios como no glorioso editorial da “ditabranda”. Parecem sentir saudades dos tempos em que levavam agentes da repressão do Regime Militar em carros da redação.

Ao tentarem dar voz a uma oposição muda, a grande mídia vai por um tortuoso caminho e vê a credibilidade, o mais importante valor para o jornalismo, ir por água à baixo. Pior, todos os atos são encobertos pelo mentiroso argumento da imparcialidade. Justamente, num momento em que passam por uma crise estrutural por conta das mudanças advindas da Internet. O mercado cobra a fatura e a tendência é que, se não houver uma correção de caminho, as perdas continuem. Perde também o país, que necessita de um bom jornalismo para o bom funcionamento da democracia. Partidos políticos já são muitos.

Enquanto os países nórdicos e outros europeus passam a consideram a conexão à internet como um direito fundamental do cidadão, constando, inclusive, nas respectivas constituições, o governo de São Paulo, buscando surfar nas ondas da web, lança o Programa Banda Larga Popular. Os assinantes poderão contar com uma conexão mínima de 200 kbps a R$ 29,80 por mês. A parte do governo fica por conta dos 25% de icms que deixarão de receber das empresas que aderirem o programa. Às empresas, a parte boa: o lucro. Ao cidadão, um serviço de baixa qualidade, e a preços que só são vantajosos à primeira vista. Vejamos.

Atrasado no bonde da história, o serviço oferecido pelo programa demonstra clara defasagem. Por padrões internacionais, para receber a nomenclatura de “banda larga”, a velocidade mínima oferecida tem que ser de 256 kbps. Logo, a internet do Serra é, no máximo, “média”.

O preço também não é bom. Para efeito de comparação, a Telefônica, a empresa que assinou o convênio com o governo, oferece uma conexão de 500 kbps por R$ 49,90, até então, seu produto de entrada no mercado. Ainda que com um preço mais elevado, a relação custo/beneficio é bem maior do que o oferecido pelo programa. Se fizermos um básico exercício de matemática, comprovamos que cada Kilobyte por segundo custará cerca de 0,14 centavos por dentro do programa. Pelo pacote de 500 kbps, tradicionalmente ofertado pela empresa, temos um custo de 0,09 centavos.

No fim das contas, o balanço é negativo. E fica um claro questionamento quanto à isenção fiscal concedida à empresa. Ainda mais, num momento em que a Telefônica recebe críticas de todos os lados pela qualidade do serviço prestado, tendo inclusive, suspensa pela ANATEL a efetivação de novas assinaturas nos últimos meses. Talvez a empresa necessite mesmo de um incentivo. Por outro lado, deixa claro também a estreita margem de manobra do estado no setor de telefonia. Em meados da década de 90, quando não se tinha a real noção da importância que a internet ganharia nos dias atuais, todo o setor foi privatizado pelo mesmo grupo do atual governador. Hoje, o tema mostra-se crucial, a chamada “inclusão digital”. Não resta outra alternativa, senão seguir a receita do “estado mínimo”, de contínuo e gradual enfraquecimento das possibilidades de intervenção estatal e estranhos conchavos com empresas privadas. Nas palavras do próprio Serra, um trololó.

 

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